quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Seção XIV na Vitrola / A balada de Landini



[Postagem originalmente publicada em 26/05/2011, de autoria de Cristian Marques]


Estava navegando no youtube atrás de umas músicas renascentistas e eis que topo com uma raridade estrondosa: um madrigal de Francesco Landini, do século XIV!!!
Para que se entenda melhor do que se trata, imagina se você encontrasse o tataravô do Gothic Metal. Uma música de vanguarda (ao menos para a época) que evoluiu de uma outra com uma atmosfera mais obscura, com baixo-contínuo (um tataravô do Doom Metal) sendo caracterizada pelo clima melódico e um enfoque sombrio em temas como religião, libertinagem, morte e temas pastoris: era o Madrigal.

Mas contemos essa história melhor. Era o outono da Idade Média, princípios do século XIV, e uma nova forma de fazer música nascia – uma ars nova – em centros culturais como Paris, Avignon, Florença, Verona. Era a cidade o espaço físico que iria emprestar palco para os representantes desta vanguarda musical, diferente dos séculos anteriores em que o campo e os feudos com seus senhores serviam de abrigo para trovadores do sul da França.

Na Itália, diferente da senhoria feudal em decadência, prósperos comerciantes disputavam com a aristocracia laica e a Igreja a proteção de artistas e letrados. Assim era o cenário daquele momento. Foi neste eixo que surgiram grandes peças deste novo estilo; entre o rio Arno e o rio Pó, Florença e de Verona na corte de Della Scalla, abrigo de poetas e letrados, cruzara Dante Alighieri e Francesco Petrarca. Assim como nosso “metaleiro” Francesco Landini.

Há um registro de um cronista de Florença do trecento elogiando Landini com muita efusividade por uma música sua apresentada naquele momento. Tratava-se de uma balada (ballata), um gênero de métrica regular e tributária da dança. Landini, natural de Fiesole, nos arredores de Florença, era filho de um pintor discípulo de Giotto di Bondone e educado nas Artes Liberais. Conviveu com a cegueira que adquiriu na infância e se tornou um grande organista (o que seria o teclado na banda moderna), poeta e compositor. Certa vez foi laureado em um concurso em Veneza, no ano de 1364, recebendo o epíteto de il divino, algo raro, principalmente sabendo que foi dado também pra Dante e Michelangelo Buonarroti. Na banca do concurso estava Petrarca!

Os programas musicais (shows) de Landini, e florentinos contemporâneos de sua geração, usavam muito a ballata para evocarem os estados da alma amorosa. Da coleção musical da corte de Della Scalla de Verona nos chegou pelo Codex Rossi dois madrigais e uma balada... Mas chega de história e palavrório, vejam o que era o “Gothic Metal” da Renascença do trecento:
Clique aqui para ver no youtube

Mundo Prog / Roger Dean - Parte 1

[Postagem originalmente publicada em 27/05/2011, de autoria de Edu Verme]



Que sou um grande fã da banda inglesa Yes todo mundo sabe, sempre deixo isso bem claro pra quem me conhece e se interessa por música. E como um bom fã de Yes, admiro por demais além da conta o ilustrador Roger Dean, que entre outros, criou as capas de FragileClose to the Edge e Tales From Topographical Oceans. E ele criou muito mais do que isso. Esse assunto veio á tona entre a troca de e-mails com um amigo, Augusto, que comentava que os desenhos do Dean são muito repetitivos, não variam o tema. Em certa parte isso é verdade, mas dentro do tema proposto por Dean, acredito que a variedade de sua obra é intensa.


Bom, vejamos.

Roger Dean (31 de agosto de 1944) é um ilustrador, designer, arquiteto e editor. Teve seu trabalho reconhecido principalmente pelos fãs de música, mais especificamente o rock, e dentro dele, sendo ainda mais específico, dentro do rock progressivo, estilo que compactua com sua arte, por suas fortes ligações com a ficção científica. Suas pinturas geralmente apresentam paisagens fantasiosas, de lugares exóticos, com vínculos na nossa realidade. Aqui, uma de suas pinturas mais conhecidas, a Freyja Castle, criada em 1987:


Podemos notar a semelhança com paisagens apresentadas no filme Avatar. Existem muitas correntes de pensamento que analisam as imagens de Avatar como uma extenção das paisagens de Dean, e muitos afirmam que ele foi utilizado como inspiração para estas paisagens, mas isso fica na esfera dos boatos, pois nada de concreto foi dito nem pelos produtores de Avatar, nem por Dean.

Dean nasceu em Ashford, Kent, e rodou o mundo junto com seu pai, que era do exército britânico. Retornou á Inglaterra em 1959. Se formou em design na Escola de Arte de Canterbury e em 1968 graduou-se no Royal College of Art, em Londres. Vive em Brighton desde 1972.

Já dentro da área do design, Dean trabalhava no desenvolvimento de coisas novas desenvolvidas apartir de algo já existente. Seu trabalho ficou conhecido ao ser chamado para criar bancos para os frequentadores de um clube de jazz, pertencente ao jazzista Ronnie Scott. Estes acentos chamaram a atenção da equipe de produção do filme Laranja Mecânica, que a utilizaram:

Vamos acompanhar então os primeiros anos de sua criação dentro do universo musical. O começo de seu envolvimento com música foi em 1968. Dean produziu uma capa para a banda "The Gun":

Em 1969, a capa da banda de rock progressivo Earth and Fire:


1970, Nucleous, com seu álbum Elastic Rock:


1970, Dr. Strangely Strange, com Heavy Petting:


1970, Clear Blue Sky, com álbum homônimo:


Em 1971, produziu a arte do álbum In Hearing Of, do Atomic Rooster:


Neste ano também produziu a capa do álbum de estréia da banda caribenha/africana Osibisa, um hibrido de inseto e elefante:


E no fim do mesmo ano, a capa do segundo disco deles, Waoyaya:


1971, Keith Tippett Group, com Dedicated to You But You Weren't Listening:


1971, Ramases, álbum homônimo:



1971, Billy Cox, com Nitro Function:


1971, Pete Dello And Friends, com Into Your Ears:


1972, Uriah Heep, com Demons and Wizards:


E 1972, Gentle Giant, com Octopus:


Aqui, alguns dos discos do Yes que Dean criou a arte.
Yes - Fragile:


Yes - Close To The Edge e o logotipo que virou marca da banda:



Yes - Yessongs:


Yes - Tales From Topographic Oceans:


Yes - Relayer:


Yes - Yesterdays:


"Existe um vínculo muito forte entre nossa música e a arte de Roger." - Steve Howe

No próximo post falarei sobre a arte que Roger Dean desenvolveu para capas de jogos de videogame durante os anos 80/90/00 e seus projetos atuais. Enquanto isso, uma última imagem dessa piração visual que Dean criou ao longo de sua vida.



Documentário - Paêbirú ("Nas Paredes da Pedra Encantada") - de Cristiano Bastos

[Postagem originalmente publicada em 20/05/2011, de autoria de Edu Verme]




Vão me desculpar, mas olhei o documentário sobre o disco Paêbirú, de Lula Cortêz e Zé Ramalho, clássico da psicodelia brasileira ontem e achei uma droga.


Ok, tem coisas boas, as histórias contadas são boas.


O grande problema ficou à cargo da edição final. Sei lá, foi uma pré-estréia, talvez o filme seja alterado ainda, mas é visível a precariedade da edição final, com longuíssimos takes de uma só pessoa falando, sem nenhuma informação (minha namorada que não conhece o álbum e sabe pouco sobre a história do Zé Ramalho, na metade do filme ainda não sabia do que se tratavam os assuntos comentados).


, podia ter uns links com a explicação. Por exemplo, quando se fala sobre a enchente, poderia aparecer em baixo aquelas coisas “mtvísticas” dizendo que rolou uma enchente que destruiu os discos prontos, etc. Poderia também ter uma pequena introdução explicando quem foi Lula Cortêz e Zé Ramalho, afinal, parto do princípio que um documentário tenha que te documentar a situação, te explicar os detalhes. Me pareceu um filme feito por quem entende do disco pra quem entende do disco. Pessoas interessadas em conhecer estão de fora, pois não vão compreender nada.


Outra questão é o forte sotaque: umas legendinhas em baixo não fariam mal à ninguém.


O corte abrupto das cenas, pra aparecer o nome das pessoas, também ficou horrível, e fica na tela por uns 5 segundos, com um fundo preto, parece as coisas que eu faço no Movie Maker!


Enfim, valeu pela questão de ter aquilo registrado, as pessoas que estavam envolvidas no disco apareceram, falaram. Mas uma edição de imagens poderia ter sido feita, poderia se ter mesclado os entrevistados, quando falam sobre o mesmo assunto (alguém já leu Mate-me Por Favor?), porque sinceramente, ficou bem chato.


Só pra não dizer que eu só apedrejo, a história dos elefantes na viagem de ácido foi muito engraçada ahahaha.


Enfim, uma boa idéia, gente legal, histórias legais, mas com uma péssima edição final.

Seção 80 na Vitrola / Depeche Mode - Black Celebration (1986) Parte 2

[Postagem originalmente publicada em 19/05/2011, de autoria de Edu Verme]


Black Celebration

O álbum e suas curiosidades



Data de lançamento: 17 de março de 1986, pela Mute Records Limited.
Gravado e mixado em Westside, Londres & Hansa, Berlim, exceto "Fly On The Windscreen", gravado no Genetic e remixado no Hansa, Berlim.
Gravado entre novembro de 1985 e janeiro de 1986
Tempo total: 41:12 (versão inglesa); 45:27 (versão americana)
Gênero: eletrônico, synthpop, darkwave

Faixas:
Lado Um
"Black Celebration" – 4:55
"Fly on the Windscreen - Final" – 5:18
"A Question of Lust" – 4:20
"Sometimes" – 1:53
"It Doesn't Matter Two" – 2:50

Lado Dois"A Question of Time" – 4:10
"Stripped" – 4:16
"Here Is the House" – 4:15
"World Full of Nothing" – 2:50
"Dressed in Black" – 2:32
"New Dress" – 3:42

A versão americana ainda conta com "But Not Tonight" (4:15) após "New Dress". Outra diferença da versão americana é na música "A Question of Time", onde um erro de masterização fez com que o ruído que soa na introdução da mesma se repetisse por duas vezes (os primeiros 4 segundos da música).

Créditos:


David Gahan - vocal



Martin Gore - teclados, samplers, guitarra, backing vocals, vocais.



Andrew Fletcher - teclados, samplers.




Alan Wilder - teclados, samplers, piano ("Sometimes"), programação, backing vocals.



Músicos convidados:Daniel Miller - teclados, samplers, programação, vocal modificado em "Black Celebration"



Gareth Jones - teclados, samplers, programação.




Produtores:

A produção do álbum contou com dois grandes nomes. São eles:

Daniel Miller (1951 - hoje) - Fundador da Mute Records, Daniel Miller se envolveu com a música já durante os anos 60, ao se apaixonar pelos sintetizadores enquanto estudava na Guildford School Of Art. No fim da década de 70, fundou a seminal "The Normal", banda eletrônica de um homem só que flertava com o minimalismo, se utilizando apenas de um sintetizador Korg 700. Seu nome está ligado a mais de 200 produções, entre elas álbuns do Fad GadgetSoft CellYazooDeath in Vegas, etc.

Gareth Jones (1954 - hoje) - Uma espécie de residente do Hansa Studio, em Berlim, Jones possui, assim como Daniel Miller, uma vasta lista de participações, e é considerado como um pioneiro no uso de equipamentos digitais. Foi ele o responsável por apresentar aos Depeche Mode e aos Einstürzende Neubauten a técnica do sampleamento, e também por desenvolver equipamentos de gravação digital, patrocinado pela Mute Records. Produziu, entre outros artistas, WireCrime and the City SolutionNick Cave and the Bad SeedsErasureIndochine e Mesh.

Engenheiros Assistentes:




Peter "BlackPete" Schmidt - Começou sua carreira como assistente no estúdio da EMI em Cologne e no Hansa Studio, em Berlim, trabalhando com bandas como Depeche ModeBronski BeatU2Nick Cave, entre outras. 



Richie "Karma Collective" Sullivan - Um dos colaboradores londrinos do álbum, mixou parte dele no Westside Studio. Trabalhou com algumas poucas outras bandas, como Pet Shop BoysPower Circle e sua própria banda, Karma Collective, que lançou apenas um álbum em 1996 sem muita expressão, e alguns EP's.

Masterização:Tim Young - Creditado em mais de 700 álbuns, singles e EP's, Tim é considerado um dos melhores Engenheiros de Masterização da Europa. Começou sua carreira em 1971, no Trident Tape Services, indo em 1976 para o CBS Studio, onde masterizou literalmente centenas de álbuns, e foi citado por bandas como The Clash e The Smiths, aumentando sua reputação e a procura por seus serviços. Algumas bandas auxiliadas por Tim: Van MorrisonThe BeatlesBjörkPlaceboBabyshamblesEarth, Wind & FireSoft CellScreamin' Jay HawkinsAccept, entre centenas de outras.

Fotografia:Brian Griffin - Fotógrafo "de casa" do Depeche Mode, apesar de ser sua última participação no álbum Black Celebration. Também é responsável pela fotografia de Speak & Spell (1981), A Broken Frame (1982), Construction Time Again (1983) e Some Great Reward (1984). Também fotografou capas de discos da banda Echo And The Bunnymen e Ultravox. Seu estúdio também trabalhou com artistas como Brian EnoGeorge MartinPeter Gabriel, Peter HammilPaul McCartney, entre outros.

Stuart Graham - Assistente de fotografia, na época. Não achei muita informação sobre ele, mas sabe-se que também foi assistente de fotografia do álbum Some Great Reward.


Curiosidades em geral
# Durante a turnê do álbum, ocorreu o encontro da banda com o vocalista do The CureRobert Smith. Em 2007 foi lançada uma versão especial do álbum Black Celebration, com um DVD bônus, com dois documentários, um sobre a coletânea "The Singles 81 > 85" e outro sobre o álbum Black Celebration. Neste segundo, é possível encontrar as imagens do histórico encontro entre o Depeche Mode e o The Cure.
# É o álbum com o maior número de músicas cantadas por Martin Gore, cinco no total: "A Question of Lust", "Sometimes", "It Doesn't Matter Two", "World Full of Nothing" e "Black Day" (bônus track). As outras são cantadas por David Gahan.
# A música "Fly On The Windscreen" havia sido lançada como B-side de um single, chamado "It's Called a Heart" (aliás, a música "I'ts Called a Heart" foi citada por Martin Gore e Alan Wilder como uma das suas músicas favoritas gravadas pelo Depeche Mode), em 16 de setembro de 1985, logo após o single de "Shake The Disease". A banda decidiu re-trabalhar a faixa, adicionando efeitos e a fazendo mais estereofônica, e a inseriu no álbum como "Fly On The Windscreen (Final)". Uma versão ao vivo dessa música é encontrada no vídeo "Devotional", de 1993, e num single especial ao vivo, com "In Your Room".
Kitty Price, jornalista, publicou na revista "The Guardian" que o single "Bad Romance", da Lady Gaga, é inspirado no álbum Black Celebration.
# A voz no começo de "Black Celebration" é de Daniel Miller, personificando Winston Churchill, dizendo "A brief period of rejoicing" ("Um breve período de alegria").
Black Celebration é o único álbum do Depeche Mode que possui uma canção com o mesmo nome do álbum.
# Na contracapa do vinil há uma frase: "Life in the so-called space age" ("Vida na então chamada era espacial").

Essas curiosidades foram tiradas quase todas da Wikipédia, portanto não asseguro veracidade.

Entrevista
Traduzo aqui uma entrevista/reportagem publicada pela Mirror Record em 23 de agosto de 1986, cujo ponto mais interessante diz respeito às questões relativas ao uso de guitarra nos álbuns seguintes ao disco Black Celebration.

"Se você se diz uma banda pop, você pode fazer qualquer coisa"

Armado com esta confiante filosofia, algumas mini-saias de couro, um sutiã e uma guitarra acústica enorme, o Depeche Mode começa a limpeza na Europa. Seria a sua negra, sinuosa música pop mais apreciada neste continente? E quantas garrafas de cerveja um hack RM pode beber sem cair?

Reportagem: Andy Strickland
Sentado, sufocado no fundo de um novo táxi italiano brilhante, me seguro no acento e canto o novo single do Depeche Mode "A Question of Time", para mim mesmo e penso: é isso aí, é apenas uma questão de tempo antes de nos amontoarmos em um carro que se aproxima, em um grupo de pedestres bronzeados, ou em uma dessas estúpidas bicicletas de três lugares que os turistas insistem em sacudir por lugares como este. Rimini foi bom enquanto durou, penso comigo mesmo.
Nosso motorista finca o pé nas ultrapassagens, dá uma beliscada no lado certo da rua (às vezes) e nos liberta em frente ao imaculado Gran Hotel. Rápido, para o bar - nós somos ingleses no estrangeiro, depois de tudo. É por isso que uma garrafa de cerveja custa 6,000 liras!
Em meio ao calor, as praias privadas e os adolescentes loucos em motocicletas, vagueiam os Depeche Mode e seus guardas. Eles estão em tour por cinco meses agora, e pela aparência de seus bronzeados (tirando Fletch), eles conseguiram encaixar algumas horas para apanhar uns raios de sol. Reunidos em volta da piscina (bem, é um lugar conveniente, como qualquer outro), nós bebemos água mineral e digo que esta deve ser a cidade favorita para as bandas trabalharem. Dave Gahan esfrega sua barriga nua e ri.

"Provavelmente é a pior, na verdade," ele me corrige. "É bom vir nesta época do ano, quando, obviamente, o clima ajuda, mas é o caos! A cidade, atualmente, se encontra no caos total!".

Martin Gore olha de soslaio através de uma brilhante máscara verde e concorda.

"Eles são gente boa e tudo o mais, mas são reconhecidos por sua desorganização. Na grande maioria das vezes os países são reconhecidos por alguma coisa que não é a realidade, mas no caso da Itália, é uma verdade mortal. Ha ha."

Praticamente tudo o que Martin Gore diz é seguido rapidamente por um grande sorriso e uma gargalhada. Não era o que eu esperava. Como pode um homem em uma saia de borracha, botas de motoqueiro e meia calça ser tão normal e alegre?
A noite anterior ao show aqui em Rimini tinha sido completamente livre de problemas. Pelo menos eles tinham eletricidade, que era mais do que poderia ser dito sobre o show em Genova. A multidão observou um set impressionante, em particular a rendição de Martin em "A Question of Lust", enquanto Dave apresentou seu ato "Freddie Mercury encontrando Bono" e eu fui lembrado de quantos grandes hits a banda teve. Até mesmo um grande rato saiu de seu esconderijo e passou por cima do meu pé enquanto o estádio explodia em coro no refrão de "Everything Counts".

"Espero que seja pago!", diz secamente Fletch, quando lhe conto mais tarde. "Por que deveria?" pergunta Dave. "Dois mil italianos não serão!", uma referência à polícia italiana que parecia escolher alguns fãs de forma aleatória para jogar fora do estádio enquanto alguns fanfarrões incomodavam.

"O público aqui é muito bom, realmente empolgado", diz Dave. "Mesmo que nós não vendamos muitos discos por aqui, pelo menos até agora".

Sempre penso sobre que espécie de animal estranho o Depeche Mode é: 'Top of the Pops', 'Saturday Superstore', garotas berrando... Todas aquelas coisas usuais do mundo pop que você espera, mas espere um minuto - escute mais de perto. 'Master and Servant', 'Blasphemous Rumors', 'A Question of Lust' - elas não são exatamente delicadas canções pops, são? A aparição recente da banda no programa do Terry Wogan onde eles tocaram 'Stripped' foi positivamente subversiva! Mas nessa parte da Europa, pelo menos, o Depeche Mode é reconhecido como tendo mais em comum com o Cure do que com o Wham!.

"Sim, definitivamente", diz Dave enquanto assina o livro de hóspedes do hotel VIP. "Acho que estamos numa posição estranha na Grã-Bretanha, estamos muito fora de nós mesmos, enquanto que na Alemanha, França e aqui na Itália nós temos muito da mesma audiência destas bandas da 'new wave' como The Cure. Na Inglaterra eu imagino que as pessoas que compram discos do The Cure não compram os discos do Depeche Mode. Tudo por causa da nossa 'tag' pop e de nosso suporte."

É claro que esta poderia ser uma desvantagem artística para o Depeche Mode, na medida em que a marca "pop" pode se tornar um fardo pesado às vezes. Mas não há evidências de que isso esteja ocorrendo, se depender do seu recente álbum "Black Celebration". Pelo contrário, parece que eles podem escrever e executar suas músicas para um grande público, músicas que ninguém mais, salvo talvez Marc Almond, conseguiria levar além da fase das demos.
De sua parte, a banda está ciente de que está anos-luz à frente dos demais grupos. Canções sobre escravidão, luxúria após os 15 anos, sexo - mas sshh! Vamos manter isto em segredo entre nós. Se isso nunca foi dito...!

"Somente depois de nos ver ao vivo ou ouvir nossos álbuns que as pessoas começam a procurar mais coisas sobre nós", explica Dave. "As pessoas só pensam em nós como uma banda pop".

Martin parece apreciar a perspectiva do Depeche Mode se afastar delicadamente da moralidade antiquada da Grã-Bretanha dos anos 80. "Nós meio que sutilmente corrompemos o mundo", diz ele, triunfante e acrescenta: "Basicamente, se você se diz uma banda pop, você pode fazer qualquer coisa, ha ha".
Não é que o Depeche Mode tenha navegado calmamente através de seus lançamentos recentes sem que ninguém tenha percebido suas letras aqui e ali. Mais do que uma sobrancelha foi levantada, como Dave revela.




"Nós tivemos um monte de problemas no 'Top of the Pops' sobre 'Blasphemous Rumours'. A BBC tem um monte de cartas reclamando quanto a isto e nós temos um monte de pedaços de pau pra eles. Nos EUA eles não se preocupam em lançar alguns dos singles, e aqueles que eles lançam nunca tocam nas rádios. Nós recebemos um monte de cartas de cristãos loucos e tal, mas é porque nós não somos grandes na Grã-Bretanha, mas somos muito grandes na Europa, então podemos fazer aquilo que realmente gostamos e, com sorte, sair sem ser notado".

Mas será que Martin já se sentiu constrangido por causa do público jovem da banda? Será que ele nunca escreveu uma letra e chegou à conclusão que aquilo era sacana demais para ser usado?

"Não, não realmente," ele pondera. "Eu nunca penso sobre o que vai acontecer com as canções quando terminadas, e porque estamos nesta posição de nos denominarmos uma banda pop nós podemos nos agarrar a isto. Eu não acho que esta é uma questão de se auto-restringir".

Neste ponto ele é interrompido por um bem vestido turista inglês, por volta de trinta anos, óculos com aro de ouro, permanente estilo Kevin Keegan e muito falante que pergunta se eles são "aquele grupo inglês que está hospedado no hotel". Ele não tem idéia sobre quem são, mas sua esposa sim. "Eles são muito famosos," ela diz depois dele fazer uma série de perguntas sobre 'o negócio'. "Então, como é a vida na estrada?", ele pergunta. "Querido", sua esposa o interrompe novamente, "hospedados no Grand, a vida deve ser dura na estrada!" Miau.

"Idiotas da classe média", diz uma pessoa próxima dos Depeche. "Eles sempre ficam em volta pra perguntar quanto dinheiro você fez", diz Dave. "Pode apostar que eles vão perguntar se você fez seu primeiro milhão. Eu sempre digo a eles que estou no meu caminho para o segundo. Isto normalmente cala a boca deles".

Fiz uma anotação para não perguntar sobre dinheiro. O novo single, "A Question of Time" é meu single favorito do Depeche Mode há tempos. É o mais próximo que uma banda eletrônica conseguiu chegar de fazer uma grande canção para dirigir (tirando 'Autobahn' do Kraftwerk), e mais uma vez as letras causaram aos meninos um ou dois problemas. Quem é esta pessoa de 15 anos que "tem que chegar até você primeiro" ("got to get to you first"), eu me pergunto em voz alta?

"Bem, hum, sim, isto foi escrito sobre uma pessoa em particular", ele sorri nervosamente. "Ponto final, sem comentários, ha, ha".

"Eu acho que é apenas olhar bem, observar", diz Dave vindo em resgate. "Antes... ahn, apenas escrever o que aconteceria com esta pessoa, uma jovem atraente que era muito inocente, do que, é claro, escrevermos que queremos pôr as mãos nela, as opiniões mudam".

Como num passe de mágica, de repente nós estamos cercados por uma multidão de adolescentes bronzeados latinos amáveis, que empurram seus livros para serem autografados e seus membros nus sob os narizes dos rapazes. "Beijo beijo?" questiona uma jovem garota enquanto se aproxima do rosto de Dave. "Não, não", ele diz a ela com firmeza antes de emendar um "ah, tudo bem".
Tendo visto Martin um ano atrás ou mais na Bélgica usando seu kit completo (incluindo um encantador par de meias vermelhas) no calor integral de uma tarde de verão sem ar, eu concluí que ele é maluco. Ao vê-lo caminhar de volta ao palco na noite passada para um bis vestindo um sutiã com uma pequena lata de cerveja em cada seio, penso que posso tê-lo julgado mal e abordei-o sobre seu guarda-roupas.

"É apenas algo que eu gosto de fazer", ele diz de fato. "É uma risada, que me faz rir quando me olho no espelho, faz as pessoas rirem quando me vêem, então estou fazendo todo mundo feliz, ha ha!"

"E isto faz as pessoas chorarem," acrescentou Dave. "Especialmente Fletch. 'Você não pode usar isso, oh, Deus!', e ele vem com seu equipamento ligado e é um grande evento pois ficamos nos perguntando o que ele está vestindo desta vez".

Martin ri alto. "Na França, há uns dois anos atrás, nós não fazíamos muito sucesso, eu coloquei estas roupas no vestiário de onde nós estávamos gravando um programa de televisão e Fletch deu uma olhada pra mim e disse 'Mart, nós nunca mais faremos coisa alguma na França se você sair desse jeito!'. A próxima coisa que nós ficamos sabendo foi que nossos hits estavam emplacando lá. E assim começou".

Fletch não está por perto para negar ou confirmar essa história. Ele foi supostamente arranjar algo pra comer, mas tenho a suspeita de que ele está me evitando, como antes quando o desafiei para uma competição de "homem mais branco da praia de Rimini". Eu ganharia facilmente.





Se Martin Gore é genial, se sua personalidade me surpreendeu, seu companheiro musical de longa data também confunde todas as expectativas. No ônibus da turnê, em seu quarto, nos aeroportos, em bares, em qualquer lugar, de fato, Martin é acompanhado por um grande e bonito... espere por isso - violão Gibson semi-acústico vintage. Ele senta em um mundo de seus próprios dedilhados, em canções de Eddie Cochrane ou tocando uma canção de blues enquanto teria dinheiro para ter um mini-teclado enfiado em algum lugar de suas meia-calças. Então, seria Martin um guitar hero reservado, Dave? 

"Eu o peguei posando em frente ao espelho quando passei pelo vestiário, um dia desses", ele ri.

E, pensando nisso, enquanto destruíamos alguns itens do hotel com um mini-bastão no quarto de Martin na noite anterior, ouvíamos Wire e The Smiths, e não D.A.F. (n.e: uma banda de eletropunk muito conhecida e influente). Será que isto significa que o Depeche Mode está prestes a se tornar uma banda de guitarra, eu pergunto?

"Bem, nós amamos guitarras, as utilizei em algumas faixas, mas é meio chato para voltar às guitarras", diz Martin. "É como o próximo passo, todas as bandas eletrônicas parecem fazer isso, não é? Ha ha."

"Nós simplesmente preferimos encontrar novos sons no estúdio", acrescentou Dave. "Embora a maioria das músicas que ouvimos como banda são baseadas em guitarra, realmente".

A guitarra de Martin também tem seu próprio acento no avião de hoje, quando todos partimos para Milão. Ele coloca o cinto de segurança em volta dela com amor, como se fosse uma criança pequena, e volta ao seu walkman (Rosanne Cash, você acreditaria?).

De repente há uivos de gargalhadas quando a aeromoça troca a música ambiente e um inesquecível som antigo de Kenny, 'Do The Bump', preenche o avião. Dave salta sobre sua cadeira enquanto Alan Wilder tenta se dar bem com Kelly Le Brock na revista de bordo.
No escaldante aeroporto de Milão, é apertos de mão por todos os lados enquanto a banda embarca para um festival no sul da França enquanto o fotógrafo Joe Shutter e eu partimos para um encontro com cervejas geladas a preços exorbitantes e para uma pizza que certamente foi a pior pizza que qualquer um de nós se lembra de ter comido. É isto que a Itália continua sendo pra você, um país cheio de surpresas - um pouco como o Depeche Mode, certamente





Letra citada - A Question Of Time
Uma Questão de Tempo
Eu preciso chegar a você primeiro
Antes que eles o façam
É apenas uma questão de tempo
Antes que eles lancem suas mãos sobre você
E façam como fazem com as outras
Eu preciso chegar a você primeiro
É apenas uma questão de tempo.

Bem, agora você tem apenas quinze
E tem boa aparência 
Eu te levarei sob minhas asas
(Alguém irá)
Eles têm modos persuasivos
E você vai acreditar no que eles dizem.

É apenas uma questão de tempo
E está acabando para você
Não vai demorar muito
Até você fazer
Exatamente o que eles querem que você faça.

Posso vê-los agora, circulando por aí
Para te confundir
Para te despir
E se divertirem
Com a minha pequena.

Às vezes eu não os culpo
Por te querer
Você é bonita
E eles precisam de algo pra fazer.
Até que olho pra você
E então eu os condeno
Conheço o meu tipo
E o que passa nas nossas mentes.

É apenas uma questão de tempo
Deveria ser melhor
É apenas uma questão de tempo
Deveria ser melhor com você.

Seção 80 na Vitrola / Depeche Mode - Black Celebration (1986) Parte 1

[Postagem originalmente publicada em 16/05/2011, de autoria de Edu Verme]



O ano era 1986, a data exata era 17 de março, um pouco mais de um mês antes de Chernobyl ir pelos ares. O synthpop agonizava, o metal imperava (só pra lembrar que nesse ano foram lançados "Master of Puppets", do Metallica, "Reign in Blood", do Slayer"Peace Sells", do Megadeth, entre muitos outros) e o post-punk oitentista expremia suas últimas gotas, servindo como inspiração para uma nova leva de bandas do chamado "rock gótico", agora bem mais eletrônicas e experimentais. Nesta fatídica data, quatro jovens, Alan WilderAndrew FletcherMartin Gore David Gahan, com seus esquisitíssimos cabelos e roupas, lançam um disco que sacudiria o mundo gótico e deixaria raízes durante todo o resto daquela década, influenciando bandas, e servindo de base para o estrondoso sucesso que o Depeche Mode alcançaria em meados de 90, com o lançamento de "Violator", que nada mais é do que um "Black Celebration" levado às últimas consequências.


Mas, vamos por partes. Vamos tentar entender o que se passava na cabeça desses quatro rapazes ingleses durante a confecção de um álbum tão estranho e diferente para a época, e para os próprios fãs do DM, até então acostumados com o minimalismo praticado pela banda.


1984 - Algum grande prêmio




O ano de 1984 foi intenso para o DM, com o estrondoso sucesso de "Some Great Reward", um álbum pesado e tão denso que foi até mesmo alvo de censura nos EUA. A banda finalmente havia se recuperado totalmente do baque criativo que acompanhou a saída do principal compositor da banda em 1981, Vince Clarke. "A partida de Clarke nos deu o pontapé na bunda que precisávamos para tomar nossas próprias decisões. Mas sem Vince nós nunca teríamos tido sucesso", comenta Gore. No começo do ano, um susto: Gahan estava dirigindo por Londres após sair de sua casa em Essex, quando seu carro sai da estrada e se choca contra outros 3 carros que estavam estacionados, ferindo a perna de um motorista. Um jornal local publica que Gahan havia atropelado o motorista, que supostamente teve sua perna amputada por causa do acidente. Através de um porta-voz da banda, anuncia-se que a notícia era falsa, e que Dave havia ficado muito chateado pela repercussão da história.

O problema com a imprensa, juntamente com o uso de ironia sobre religiões e um confronto inevitável com a igreja, se agrava com o lançamento de "Some Great Reward", álbum que trazia letras e temas fortes e polêmicos, como "Master and Servants", sumariamente banida da BBC, e "Blasphemous Rumours", sobre uma mãe que perde suas duas filhas recém-convertidas ao cristianismo e conclui que "Deus tem um péssimo senso de humor". Sobre ela, Andy Fletcher, que vinha da igreja e participava da Boy's Brigade (uma organização cristã), diz que a odiava, mas que percebeu gradualmente que era um comentário social válido. "'Blasphemous Rumours' não é realmente uma canção não-religiosa", diz Gahan na época. "É claro que é uma declaração pessoal de Martin, faz parte. Mas ao mesmo tempo é uma demonstração de como todo mundo deve se sentir em um momento ou em outro. Todos nós tivemos um pouco de educação religiosa, Andy particularmente, e eu fui à igreja regularmente durante um ano quando eu tinha 18, então há obviamente um pouco de rebelião contra isso. É exatamente isso, alguma das coisas que percebemos, como aquela lista que havia com o nome de pessoas para orações, e sempre tinha uma no topo que morria. Coisas como essas...". A música foi parcialmente baseada em uma menina que Martin conheceu certa vez, quando seu próprio interesse o motivou a ir à igreja com Fletch e Vince, aos 17 anos, "como um observador. Eu nunca fui cristão, mas eu queria entender o que motivava as pessoas a serem cristãs". Sobre os problemas com a imprensa, Gore comenta: "Eu tenho uma teoria de que se você não se expor demais, você dura mais tempo. Geralmente nós não temos muito a dizer, e na mesma medida as entrevistas vão começando a ficar muito entediantes. Eu não estou interessado em ser o centro das atenções". Dois anos depois, essa questão é tratada em outra entrevista: "Eu odeio entrevistas, na verdade, pois acho difícil soar natural. Eu odeio as ler, também. Essa é a razão pela qual não gosto de fazê-las. As últimas que fizemos tiveram em geral perguntas interessantes, mas quando eu lí o que saiu, eu pensei comigo mesmo: 'Eu tenho que ter mais cuidado na próxima', mas você nunca tem mais cuidado. Eu não culpo os jornalistas, eu culpo a mim mesmo".

Pode-se perceber que a banda estava passando por uma fase de pura rebeldia, colocando a cara à tapa sem se importar com considerações vindas de fora. Também não é nada que assuste, visto que na época eles estavam com seus vinte e poucos anos. Mas já podemos começar a entender a explosão de ousadia que começava a acontecer aqui e fecundada, resultaria no álbum "Black Celebration": "Eu gosto de fazer minhas letras soarem interessantes tocando em questões de tabus sociais. É muito fácil tocar músicas no rádio que não digam nada às pessoas. Então você apenas tem que se desviar ligeiramente para chocar as pessoas, coisa que gosto muito de fazer", diz Martin. Gahan segue a mesma linha de raciocínio: "Você tem que correr riscos... não se pode estar seguro o tempo todo, mesmo quando o tipo de pessoa que você possa ofender são aqueles tipos que adoram começar um barulho e fazer petições e este tipo de coisa. Eles são uma minoria".

Ainda em pé de guerra com a imprensa, a recepção do disco foi calorosa por parte dos fãs - os antigos, que cresciam junto com a banda, e os novos, cada vez mais numerosos -, e sombria por parte da crítica, que insistia que o disco "Some Great Reward" era um compêndio de não-amor. "Não. O álbum é sobre todos os tipos de coisa para além do amor... através da alimentação, religião, vida", diz Martin.



1985 - A preparação da celebração negra


O ano seguinte, 1985, é o ano da pausa do Depeche Mode. Tempo de rever (ou se aprofundar em) conceitos, polemizar, criar caso, guardar as velhas roupas no armário e comprar muito couro. A banda estava em todas as paradas, fazendo grande sucesso na Europa, e consegue estourar mais uma música, que a princípio deveria sair no próximo álbum de estúdio, "Black Celebration", chamada "Shake the disease", lançada em 29 de abril, mas que acabou incluída na coletânea "The Singles 81-85" para aproveitar o sucesso alcançado pela faixa (afinal, a gravação de "Black Celebration" ainda nem havia começado). Por essa época a banda começou a ser associada com a cultura gótica, ao mesmo tempo que o público gay também aumentava. "Eu gosto de vestir-me com roupas femininas", desabafa Martin. "Isso não faz de mim um travesti e nem quer dizer que estou 'por dentro do lance' vestindo-as, mas... er... roupas afeminadas me atraem. Eu gosto da combinação de casaco e calças com roupas de mulher. Isso desorienta as pessoas. O Depeche Mode não é pró-homossexualismo, mas desde o primeiro LP, com músicas como 'What's your name' e 'Boys say go', temos atraído uma pequena proporção de gays".


Em março, a "Some Great Reward Tour" retoma a estrada, passando pela América do Norte, Japão e Europa. Um vídeo é lançado, chamado "The World We Live In and Live in Hamburg", contendo uma apresentação em Hamburgo, na Alemanha, país muito querido por todos da banda. Foi lá que álbuns como "Construction Time Again" e "Some Great Rewardforam gravados, e onde futuramente "Black Celebration" também seria parido. "É a atmosfera", admite Gahan. "É um lugar pequeno onde você se sente à parte do mundo. Não há distrações, como em Londres. Eu não consigo mais trabalhar na Inglaterra. É engraçado. O estúdio está situado junto ao muro de Berlim, mas nenhum de nós jamais foi ao Oriente. Martin tentou uma vez, mas não o deixaram entrar devido á maneira como estava vestido. Eles pensaram que era um arruaceiro. As pessoas imaginam que trabalhamos aqui porque é uau, você sabe, um clima pesado, mas eu não sinto isso. O lugar é muito suburbano. Berlim é como Brixton".

Em novembro, ao término da tour e após um mês de descanso, os quatro se encaminham para Kreuzberg, um distrito de Berlim, para começarem as gravações do próximo álbum, no Hansa Studio, estúdio este que já havia sido palco de muita criatividade. Alguns álbuns gravados lá: "Heroes" do David Bowie, "The Idiot" e "Lust For Life" do Iggy Pop, "Force Majeure" do Tangerine Dream, "The firstborn is dead", do Nick Cave, entre vários outros. Por esta época a banda delineava claramente os caminhos que o álbum seguiria, com Martin falando sobre o tédio das excursões e um estilo de vida decadente que almejava seguir. "Sou uma pessoa bastante pessimista, que vê a vida como algo muito chato. Então tento ver essas coisas... amor, sexo, bebidas, como algo contra o tédio da vida. Quero representar o tédio da vida.".Apesar do clima sombrio de 1985, este ano também foi o ano em que Dave Gahan casou-se com Joanne Fox, na época presidente do fã-clube da banda, por quem foi apaixonado durante toda sua adolescência. Com Joanne, Gahan teve um filho, Jack. Eles se separaram em 1991, e Joanne pode ser vista no documentário "101", lançado em 1989. "Eu não sei porque nos casamos", diz Gahan em uma entrevista em 1986. "Foi apenas algo que nós dois estávamos a fim de fazer. Jo é a única pessoa com quem eu me sinto completamente á vontade, e quando você sente que pode fazer qualquer coisa na frente de alguém sem que soe artificial, então é com essa pessoa que você deve ficar."



1986 - O tédio da vida

"Eu amo preto...", diz Martin. "Eu amo a cor preta e eu amo roupas de couro em geral. Também adoro a idéia de ser amarrado, pois... eu amo a sensação de desamparo, e este deve ser o único motivo.". Desse modo 1986 começava para a banda.Em 10 de fevereiro, é lançado o primeiro single do álbum em gestação, "Stripped", que logo de cara chega à 15ª posição no Top 20 europeu. Carregada de uma aura "pop industrial", a banda apresenta um som ameaçador, altamente atmosférico e texturizado, diferente de tudo que o grupo vinha produzindo até então. As letras de Gore se mostram cada vez mais sombrias e pessimistas.

Stripped

A espinha dorsal de toda esta faixa foi baseada em torno do som de uma moto em marcha lenta gerado a partir de um Emulator - Preset 1 original, e um padrão de graves que foi alimentado por uma caixa Leslie. Sons adicionais, como a ignição do Porsche 911 de Dave e uma série de fogos de artifício (tirados da Guy Fawkers Night), foram gravadas pelo produtor Gareth Jones no estacionamento do estúdio com uma variedade incomum de microfones. Eles foram colocados em diferentes distâncias e alturas deixando que os fogos de artifício atingissem os angulos apropriados para criar um efeito estereofônico completo. Um kit de bateria alugado foi montado em uma área grande da Westside e usada para samplear os sons individualmente, tornando mais notáveis os tons neste ambiente especial (Fonte: http://www.recoil.co.uk/editorials/8698/bc/bc_07.html). O videoclip da faixa foi filmado e dirigido por Peter Care, no lado de fora do estúdio Hansa.
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Como "lado B" do single "Stripped", a música "But Not Tonight", que acabou sendo usada no filme "Modern Girls" de Jerry Kramer (que também dirigiu "Moonwalk", o filme do Michael Jackson) e saiu na edição americana de "Black Celebration", para desespero da banda, que considerava a música uma canção pop inútil que não se enquadraria no clima sombrio do disco. Um single de 12 polegadas saiu mais tarde, contendo mais lados B: "Breathing in fumes", uma nova música usando samples de "Stripped" e mixada pela banda e por Thomas Stiehler, e "Black Day", uma brincadeira acústica em cima da música "Black Celebration", cantada por Martin Gore e a única música que teve em seu crédito o nome do produtor Daniel Miller.

But Not Tonight

Apesar da banda ter composto essa música às pressas (em apenas um dia) e a detestar, ela fez um relativo sucesso, entrou para a trilha sonora de um filme e ganhou clip por parte dos Depeche Modes. Dirigido por Tamra Davis, o clip possui efeitos inovadores, onde um dos membros ficava de cabeça para baixo enquanto os outros permaneciam em pé. Uma curiosidade dessa música é que ela possui um rítmo e algumas notas iguais à "Angel", da Madonna, que havia saído um ano antes. Entre alguns que regravaram essa música estão Scott Weiland (do Stone Temple Pilots), Jimmy Somerville e Dntel.
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O lançamento de Black Celebration

E finalmente chegamos àquele fatídico dia, 17 de março de 1986, uma segunda feira. Enquanto Richard Clayderman fazia suas últimas apresentações de sua turnê brasileira, os quatro rapazes do Depeche Mode lançavam o disco que marcaria a história da banda e abriria as portas para a darkwave invadir as pistas de dança e os cemitérios do mundo inteiro. "Black Celebration" representa muitas coisas para o Depeche Mode. Sonoramente, nós podemos enxergar a evolução de sua sintetizada, sampleada, semi-industrial musica pop. Liricamente e temáticamente, o que temos é uma realização plena da desolação com a qual a banda vinha flertando em canções como "Blasphemous Rumours", "Love, in itself" e "Shake the disease". Apesar de tudo, o disco foi recebido friamente, não trouxe nenhum hit (apesar de hoje as faixas desse disco serem consideradas as favoritas de muitos fãs) e nem subiu as paradas de sucesso. Os que menos gostaram, pra variar, foram os jornalistas. Uma reportagem no NME, popular revista britânica de música, detonava o álbum: "'Black Celebration' encontra os Depeche ainda mais ansiosos do que estavam no deprimente "Some Great Reward" (...), gatinhos de pelúcia desesperados para parecerem como pervertidos, desesperados para escaparem da superficialidade do estrelato teen". Essa acidez tinha razão de existir: "New Dress", música que fechava o álbum, atacava a imprensa de forma escancarada.

New Dress

New Dress é uma das músicas mais dançantes do álbum, e ao mesmo tempo a que mais carregava uma aura de indignação. Após a briga com a imprensa, que começou no acidente de carro de Gahan, a banda sentia a necessidade de expressar seus reais sentimentos sobre a relação entre o que era publicado nos jornais e a realidade que não estavam naquelas palavras. Usando de ironia, Martin descreve o que seriam reportagens comuns em jornais, em um mundo onde morte e desespero também são comuns:

"Com ameaças sexuais um homem assassina sua esposa.
Uma vítima de explosão luta por sua vida.
Uma menina de treze anos é atacada com uma faca.
A Princesa Daiana está usando um vestido novo."

A ironia maior viria do fato que a Princesa Daiana morreria nas mãos dessa mesma imprensa que maltratava a banda anos antes. E, deixando tudo claro, definitivamente, Martin explica de que forma a falsidade da mídia poderia dominar o mundo, em um recado direto para todo e qualquer jornalista, mas talvez especificamente para o jornalista que acusou Gahan de ter decepado a perna do tal motorista:

"Você não pode mudar o mundo
Mas você pode mudar os fatos.
E quando você muda os fatos,
Você muda pontos de vista.
Se você muda pontos de vista,
Você pode mudar um voto,
E quando você muda um voto,
Você pode mudar o mundo."

NME revidava: "Mais triste ainda é 'New Dress', um ataque desenfreado à hipocrisia da imprensa, que na sua justaposição sem graça de títulos de reportagens ('horror, fome, milhões de pessoas morrem') contra seu refrão ('Princesa Diana está usando um vestido novo') recorda nada mais que um poema do ensino secundário".
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Na época do lançamento do álbum, a banda estava afundada na depressão. Talvez um pouco de teatro, afinal era necessário passar para os fãs a sensação de que o grupo era realmente aquilo que parecia ser no novo álbum. "Estamos péssimos", resmunga Gore, melancólicamente. "Se nós nunca somos felizes? Somos". Mas há de se admitir que o modo como soa o novo trabalho da banda é bastante deprimente, e Martin escreveu um monte de canções sobre como sua relação com garotas e coisas do gênero são o único consolo para a podridão geral do resto da vida e assim por diante. Mas será que a vida de pop star é realmente algo tão terrível? "Bem", ele diz, "é muito melhor do que a maioria dos empregos. Mas o que faço quando escrevo canções é muitas vezes recorrer à experiências passadas, como quando eu trabalhei por um ano e meio em um banco e tive que lidar com ordens permanentes - isto sim foi totalmente enfadonho". O resto da banda não parecia estar diferente da sombriedade de Gore. Alan, quando questionado sobre a felicidade na vida de um pop star, explica, dramaticamente: "Mesmo no nosso negócio - o mundo pop glamuroso -, você entra em uma rotina entediante. E você também começa a perceber pessoas estranhas rondando sua casa. Eu acho que a vida privada deveria ficar privada". Andy Fletcher com a palavra: "O novo álbum... ele não é uma espécie de pule-pule, como Madonna, não é? Nós ficamos realmente putos pelo fato de 'Stripped' não ter feito melhor. Foi chato... ela é um milhão de vezes melhor do que o nosso último single. Bom, de qualquer forma eu prefiro não ficar nas paradas o tempo todo". Dave Gahan: "'Black Celebration'... sim, é um título muito pesado. Não tem nada a ver com magia negra, como a maioria das pessoas parecem pensar. É mais sobre como a maioria das pessoas na vida não tem nada para comemorar. Elas vão trabalhar todos os dias e depois vão para um bar afogar suas mágoas. É disto que se trata - a comemoração do fim de mais um dia negro. Acho que é trágico você ter que compensar as tristezas ficando bêbado, mas também não vejo nada de anormal nisso. No fim das contas nós fazemos isso o tempo todo". Nada que se ensine na escola te prepara para as estranhas provas de ser um pop star: ser interrogado quando você está se sentindo mal-humorado, ser perseguido por fãs na rua, ser atingido por objetos estranhos jogados no palco... "Sim", rí Dave. "Na América jogam de tudo na gente - sutiã, suspensórios, calças e sapatos. Teve um show em que tinhamos cerca de 40 sapatos espalhados pelo palco, mas não havia pares! Imagine todas essas pessoas pulando até suas casas". Bom, enfim, parece que um pouco de humor ainda existia no coração da banda.




(Continua...)